26 agosto, 2011

Triste Árvore


Na aurora ou talvez
No declínio do nosso amor,
Gravamos nossos nomes
Numa forma de natureza,
Numa triste, seca,
Mas folhada árvore,

Nela quis eternizar nosso amor,
Porém não sabia eu
Que “nosso amor” talvez
Não existia ou morreria
Tão rápido, tão antes
Da própria natureza
Apagá-la da nossa árvore.

E gravado um dia encontrei
Nossos nomes, dentro do coração
Que você rabiscou ainda com emoção,

Numa forma triste, opaca,
Mas ainda se encontrava
Mais intacta do que nós,

Lá nossos nomes estavam
Tão juntos, ainda unidos pelo coração,
Como que se protegido
Numa gostosa sombra de outono,
Tranquila, tão diferente
Da nossa realidade.

Agora a distância e o esquecimento
É pouco pra nós
Que já não somos dois,
Eu já te apaguei
E talvez você
Nem se lembre que existi,

Mas parada ali olhando
Seu nome e o meu pensei:
-“Como pode tanto amor
Ser derribado por tão pouco”?
Tão rápido, tão frio!

Nem a força da natureza
Ainda apagou os nomes,
Mas amor a muito acabou,
Foi, me deixou e nem explicou

Qual foi meu pior erro,
Qual o motivo do enterro
De um amor tão imenso,
Tão curto, porém tão intenso.

Porém só o que há a dizer
Que enquanto durou
Foi bom, pena que algo
Te levou, mesmo você tendo
Jurado que jamais partiria,
Pelo menos sem mim não,

E no final de tudo
O que sobrou foi apenas
Seu nome, junto ao meu
Abandonados pelo tempo
Numa árvore triste,
Talvez por saber
Que nosso amor existiu...

Passou por ali, mas já acabou,
Que se foi com as estações
De dentro dos nossos corações
Todo aquele amor!

Amnésia do Poeta


A amnésia no poeta
É como um câncer
Que lhe toma a memória,
Arrancando cada palavra
Cada rima já escrita,

Lhe rouba a esperança
De voltar a encantar,
Com que um dia foi alegria
E lhe pertenceu, mas adoeceu,

Abandonando sem deixar
Si quer a memória a lhe contar
Como foi ser poeta,
Mas agora ser reduzido
A mera amnésia
Do que um dia foi entoado:
-“Poeta”!

Como um câncer...
Vai comendo aos poucos
As memórias, sonhos,
Palavra por palavra de um vocabulário
Rico de muito amor e rima,
Reduzido a nada... Mas
Talvez reste o encanto das rimas
Do poeta sem memória.

Minha Vida?

Minha vida?
É sentar e observar
O tempo andar,

Minha vida?
É deitar e esperar
O tempo passar,

Minha vida?
É olhar os dias
As noites mesclar,

Minha vida?
É aguardar dona morte
Vir me buscar,

Minha vida?
Almejar o fim chegar
E tudo enfim acabar.





Meu olhar é loiro, loiro  tão doido
Meus lábios reflexos daquilo que se quer ouvir
Meu rosto gordo, talvez tudo aquilo
Que se queira ver num rosto amigo
Meu coração talvez um flagelo qualquer
Meu coração mendigo sem casa ou abrigo...

E a lua como um olhar... Luta
Pra enxergar por detrás da
folhagem...
Luta por detrás das nuvens
Para lançar seu cálido lumiar
Aos loucos que ainda se
arriscam a amar!


Das trevas surgiu a lucidez
Dos meus pensamentos mais profundos,
E da minha derradeira loucura
Nasceram meus poemas mais lindos.

Vendedora de Sonhos


Sonhos eu os tenho
Eu os conto... Eu os sopro...
Eu os reinvento...
Eu os vendo sem preço
Eu os compro ao relento

Eu os reciclo... Recrio...
Eu os lanço sem medo...
Eu os trago de berço...
Eu os carrego no peito...
Eu os perco no caminho

Eu os amparo... Os salvo
Eu os descubro... Eu os guardo
Eu os cobro... Eu os troco...
Eu os modelo... De certo modo
E então eu os dou...

Eu os prendo... Eu os solto
Eu os grito... Eu os digo
Eu os dito em livros...
Ou num manuscrito
E os lanço num ouvido atento
Ou num olhar discreto

Sou a vendedora de sonhos
Cada sonho a seu dono
Sou a contadora de reversos
Sou o embalo de versos ao sono
E o embalo de teu sono a teus sonhos
Sou a autora de teus sonhos mais profundos.


24 agosto, 2011

Componho poemas


Eu arranho um poema
E componho tons de cinema,
Numa eufórica melodia
De uns riscos, e arrisco em cena,

Dedilho uma rima meio sem magoa
Nem nada assim de cara,
Só deságuo uns versos feito melodia,
Uma mentira feito alegria,

Meu som é verso... Minha nota é poesia,
Minha estrofe é toda agonia
Transtornada em arte,

E no conserto dos meus sonhos,
Quem canta é o espectador
Na primeira fila, como se fosse o sonhador,

Porque dedilho o que te faz sonhar,
Te transbordo de esperança,
Te resgato boas lembranças,

Pois no teatro dos teus sonhos
Arranho um solinho,
Entre mim e tua imaginação,

E com minhas doces ilusões,
Que resgatam lindas emoções
Que a muito não as tinha consigo.


Rosa Pó


A rosa que tu me deste
Dentro de meu livro predileto,
Eu a embalsamei em segredo,
Pois queria eternizar teu amor,
Mas foi tudo bem em vão,

Anos depois o busquei
Dentro do livro de dizeres de paixão,
O pequeno botão de rosa paixão,
Mas já nem sei se o encontrei,

No lugar da cor dos apaixonados
Só pó mais nada e só,
No lugar das pétalas amassadas
Só o caule seco e seus espinhos,

Parecia já o amor que um dia
Guardei neste peito, que hoje só pó
Em lugar daquele sentimento,

E como o talo e os espinhos,
Só sobrou a dor das marcas
Daquele amor já esquecido,
Já desmantelado, decomposto,

Limpei as páginas dos resíduos,
Do que um dia foi um botãozinho
De uma rosa paixão,
Limpei minha vida daquele passado
Que te pertenceu,

E aprendi que o amor pode ser mais
Doido, mais doído do que os nossos poetas
Ou os loucos apaixonados, nos tem revelado,

Mais espinhos do que perfume,
Mais dor numa beleza fingida,
E no final tudo que conseguimos recordar
São as marcas, e as dores de um quer
Que dizem ser o “Amar”.